Introdução de espécies exóticas PDF Imprimir e-mail

Certamente muitos pescadores gostam verdadeiramente dos rios e o facto de capturarem os peixes não significa que não tenham grande prazer no desfrute da beleza do rio, na pureza e abundância em peixe das suas águas. Muitas vezes têm sido introduzidos peixes de espécies que não existiam no país, umas vezes feitas por particulares, outras vezes (sobretudo no passado) por organismos do próprio Estado. Frequentemente a ideia era tornar o rio mais interessante em termos da riqueza de espécies para a pesca, introduzindo peixes mais saborosos, que dão mais luta ao pescador ou que simplesmente compensam a raridade dos peixes nativos. Muitos rios do Norte foram repovoados com trutas do norte da Europa de raças muito diferentes das nossas. Durante muitos anos, funcionaram viveiros de trutas que iam lançando nos rios peixes jovens para compensar aqueles que iam sendo pescados e chegou-se mesmo a introduzir uma truta da América do Norte, a truta-arco-íris, que felizmente parece não se reproduzir naturalmente nas nossas águas. No Sul, a partir da década de 60, o achigã começou a ser introduzido por toda a parte. Era um peixe grande e saboroso, muito mais atractivo para a pesca do que os “peixes miúdos” nativos das ribeiras do sul do país. Mais recentemente, a partir dos rios internacionais como o Tejo ou o Guadiana, começaram a chegar a Portugal vindos de Espanha grandes peixes predadores, certamente bons troféus de pesca, como o lúcio (Esox lucius) que pode atingir 1,5 metros e o peixe-gato-europeu (Silurus glanis), um predador que pode atacar o próprio Homem e que atinge 5 metros de comprimento! Pescadores e por vezes até organismos estatais olhavam para o rio como quem monta um parque artificial. Foi assim que, para além dos predadores, se introduziram também peixes presa, nuns casos deliberadamente para servirem de alimento aos peixes predadores, noutros eram isco vivo que sobrava ao fim de um dia de pesca e que os pescadores lançavam para o rio. O góbio Gobio lozanoi, um peixe do sul da França, tinha sido introduzido nos rios espanhóis no século XIX para alimentar os salmonídeos, daí passou a Portugal e tem sido espalhado de tal modo pelos pescadores que raros são os rios portugueses onde não se encontra a espécie. O lagostim de água doce do Louisiana, quem não o conhece? Introduzido há poucas décadas, parece não haver ribeira do centro ao sul do país em que não se pesque. E quem não encontrou já perca-sol, peixe dos Estados Unidos, espalhado em rios, ribeiras e represas? Até um peixe brasileiro, o chanchito, está hoje instalado na bacia do Guadiana. Uma lista completa das espécies introduzidas no território de Portugal continental encontra-se aqui.

Para se ter uma ideia da disseminação dos peixes que os pescadores fazem vale a pena dizer que um pequeno peixe da família das bogas, o alburno (Alburnus alburnus), que não existia na Península Ibérica e que tinha sido localizado nos rios de Espanha perto de Barcelona, foi capturado em números apreciáveis por investigadores da UIE-ISPA num afluente do Guadiana, no Outono do ano passado. Encontravam-se peixes adultos a par de juvenis com menos de um ano, o que significa que estes peixes parecem estar a reproduzir-se no nosso país. Haverá problemas?

 

É difícil de prever com rigor as consequências da introdução de um número tão grande de espécies na nossa fauna. Parece no entanto haver três grupos de problemas diferentes que suscitam preocupação. Os nossos rios não tinham, exceptuando as trutas e os salmões, grandes predadores. Especialmente nos rios do sul, as espécies nativas eram de pequeno ou médio porte e incapazes de comer peixes a não ser os muito pequenos. A introdução de lúcios ou de peixes-gato e sandras, predadores de grande porte, pode conduzir à extinção de populações das espécies mais pequenas, especialmente no sul do país, onde os cursos de água são de tipo mediterrânico. Como os rios ficam praticamente reduzidos a pêgos no Verão, as populações de cada espécie são pequenas porque estão limitadas pela escassez de espaço e alimentos durante as secas. Por outro lado, os peixes são obrigados a concentrar-se em grande número em espaços muito reduzidos, onde mesmo um pequeno número de predadores pode devorar grandes quantidades de indivíduos. Os peixes introduzidos de porte mais pequeno, como a perca sol, não são predadores de peixes adultos, embora possam consumir alevins. No entanto, podem competir com a fauna nativa se forem, por exemplo, mais eficientes a apanhar o alimento. Ao mesmo tempo, ao servirem de suplemento à alimentação dos grandes peixes como os achigãs ou os lúcios, ajudam a manter mais numerosas as populações de predadores. Como estes predadores comem muitos tipos diferentes de peixes, irão comer tanto os introduzidos como os nativos. Assim, a introdução de peixes presa, mesmo quando não competem directamente com as espécies da nossa fauna, pode ajudar directamente os predadores a eliminá-la. O terceiro problema relaciona-se com o risco de hibridação. Nos peixes é frequente formarem-se híbridos entre espécies diferentes da mesma família. As bogas de boca recta, impedidas de subir os rios para desovar em fundos pedregosos devido às barragens, formam híbridos com os ruivacos, espécie mais sedentária e mais pequena, nas zonas abaixo das barragens.

O alburno, que acaba de ser descoberto em Portugal, pode formar hibridos e por em risco pelo menos três espécies aparentadas que existem na bacia do Guadiana. Uma delas, o saramugo, espécie altamente ameaçada, é um parente não muito distante do alburno e se a hibridação com esta espécie introduzida for muito intensa pode levar à extinção o saramugo, que só existe na Península Ibérica. Para além da introdução de espécies exóticas, os pescadores transportam muitas vezes peixes da nossa fauna de uns rios para os outros, para aumentar a abundância de peixe ou porque sobrou isco vivo que libertam no rio. O problema destas acções é que populações que estavam isoladas há milhares ou mesmo milhões de anos em rios diferentes e que evoluíram adaptando-se às condições particulares de cada rio, se misturam com populações que, embora nativas do nosso país, vieram de rios muito diferentes, descaracterizando-se as populações locais. As verdemãs que se vendem para a pesca para servir de isco vivo são um bom exemplo. Vendidas em lojas de pesca ou conseguidas por processos semelhantes, o próprio pescador não sabe muitas vezes de que rio vieram, e podem ir libertá-las a centenas de quilómetros, num rio inteiramente diferente. Trutas, barbos, bogas e escalos, peixes com valor para a pesca desportiva, são muitas vezes introduzidos para repovoar rios sem nenhuma atenção à sua origem. Não é demais repetir, depois de falar de tantos problemas, que os pescadores que fazem estas introduções e transplantações de peixes têm certamente as melhores intenções: tornar o rio em que gostam de pescar mais rico em peixe, ajudar a repovoar águas em que o peixe falta. A intenção é evidentemente louvável. O que muitas vezes não é suficientemente explicado e um pescador não pode adivinhar sozinho é a natureza especial dos rios como ilhas de água doce isoladas no meio de um território sem água. Os rios são, na verdade, um pouco o contrário das ilhas num oceano: os animais terrestres de uma ilha (lagartos, coelhos, etc) só em condições excepcionais conseguirão atingir uma ilha distante. Do mesmo modo, os animais aquáticos de uma bacia podem estar separados há milhares ou milhões de anos, mesmo de rios próximos, porque não podem fazer o caminho que os separa fora de água, também só em condições excepcionais conseguirão passar de um rio ao outro. Isto quer dizer que cada rio tem uma história única, que os seus animais aquáticos muitas vezes têm características próprias mesmo quando à vista parecem impossíveis de distinguir de animais de rios próximos. Aquilo que está em causa é a preservação do património próprio de cada rio. Há várias espécies de peixes de água doce endémicas do nosso território. Quer isto dizer que são únicas no mundo e que se as destruirmos, destruimos um património de toda a Humanidade. Há uma pequena boga, a ruivaco do oeste, recentemente descoberta, que é conhecida em apenas três ribeiras da zona entre Mafra e Torres Vedras, já várias vezes citadas na imprensa, rádio e televisão devido às descargas de poluentes de que têm sido alvo. Há uma boga que só existe no sudoeste do país, nas bacias entre o Mira e o barlavento algarvio, e dois escalos que também só existem nessa parte do território (um no Mira e ribeiras do sudoeste alentejano e outro nas ribeiras do Algarve). Uma outra boga, a boga portuguesa, só existe no rio Sado, no Tejo e nas pequenas ribeiras à volta de Lisboa, incluindo o próprio Trancão, de tão má fama. Estes exemplos dão-nos bem a medida do valor de cada rio. Não se trata de peixes nem muito saborosos nem de grande tamanho, portanto o seu valor não se mede pela gastronomia ou pela luta que dão ao pescador de cana. No entanto, se quisermos legar às gerações futuras as espécies nativas do nosso país, principalmente quando elas não existem em mais nenhum lugar do mundo, passamos a olhar para estes pequenos peixes com outro respeito. São património da Humanidade e se toda a gente estivesse bem informada certamente não haveria uma só pessoa, pescador ou cientista, guarda da natureza ou político, que quisesse por em perigo estas espécies. O que torna a situação mais preocupante é que quase todas estas espécies endémicas do nosso país e com áreas de distribuição muito restritas ocorrem em pequenas ribeiras. Seria muito difícil levar o ruivaco do oeste à extinção? As três ribeiras onde existe quase secam no Verão ou têm as suas águas brutalmente poluídas como pode verificar qualquer pessoa que olhe para o Sizandro em Torres Vedras. A espécie escapou até agora em pequenos pontos afastados da corrente principal das ribeiras, relativamente perto das nascentes, em áreas até agora poupadas pelos esgotos urbanos, industriais e agropecuários. Basta secar meia dúzia de pêgos, por exemplo para regar hortas, basta um despejo clandestino de uma substância tóxica, basta uma obra de regularização mal feita, e uma população inteira de um destes três rios pode desaparecer. Se pensarmos que os estudos biológicos sugerem que esta boga está separada dos seus parentes mais próximos e se conserva nesta região há mais de 5 milhões de anos, temos bem a medida da nossa responsabilidade e do tesouro que os habitantes do oeste de Portugal têm nas suas mãos. Só a sua colaboração, baseada numa atitude informada da população e numa acção empenhada de empresas, autarquias e organismos centrais, poderão proteger esta espécie eficazmente. A mesma situação de grande risco se aplica às bogas e escalos do sudoeste alentejano e do barlavento algarvio.

Secção: Os peixes introduzidos em Portugal

 
 
 
 
 
 
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